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O que aprendi desenhando produto no Brasil
Tem uma cena que não sai da minha cabeça: eu andando pelo Ver-o-Peso, em Belém, cercado de cheiro de peixe fresco, cor por todo lado, gente gritando preço, gente rindo, gente resolvendo a vida ali mesmo, na base da conversa. Eu fui pra lá numa viagem que devia ser só descanso. Voltei apaixonado e, sem saber, com uma aula de design que nenhum curso tinha me dado.
Eu sou design. Vim do design industrial, hoje vivo com um pé no tech, construindo produto, automação, IA e sistema. Mas o olhar nunca deixou de ser de designer. E foi em Belém, longe de qualquer tela de Figma, que entendi uma coisa que hoje guia como eu penso produto no Brasil: aqui, a solução bonita no papel raramente é a que funciona na rua.
No Rio, no dia a dia da agência, a gente vive cercado de best practice gringa. Framework validado, benchmark de startup americana, design system que funciona liso em qualquer device. E funciona, até bater de frente com a realidade brasileira, que é gambiarra genial, jeitinho, gente se adaptando o tempo inteiro porque o sistema formal nunca dá conta. Em Belém eu vi isso na veia: barraca organizada sem nenhum manual de UX, fluxo de venda que resolve em três frases o que um app levaria cinco telas pra fazer.
Isso me fez repensar todo processo. Passei a desenhar produto pensando menos em "qual é o padrão certo" e mais em "qual é o caminho mais curto pra essa pessoa resolver o problema dela, com o contexto que ela realmente tem": internet instável, tempo curto, paciência curta, confiança que se constrói na conversa, não na interface.
Isso aparece em tudo que eu construo hoje. Quando desenho um fluxo de qualificação de lead no WhatsApp, por exemplo, eu não penso em "melhor prática de chatbot". Penso em como uma pessoa de verdade, ansiosa, querendo resolver uma dor de saúde, escreveria pra outra pessoa. Quando penso em pagamento pra clínica, não penso só em taxa e conversão. Penso em quem é o médico do outro lado, o quanto ele já tá cansado de sistema complicado, e o quanto ele precisa que aquilo pareça simples mesmo sendo, por dentro, bem complexo.
Design de produto no Brasil também é design de resiliência. A gente lida com instabilidade constante: de infra, de mercado, de regra fiscal, de comportamento do usuário. Isso obriga a desenhar sistemas que aguentam caos sem quebrar a experiência de quem usa. Não é sobre criar o fluxo perfeito. É sobre criar o fluxo que sobrevive à segunda-feira real, não à segunda-feira do protótipo.
E tem uma última coisa que Belém me ensinou, que não é técnica, é mais visceral: raiz importa. Eu tenho raiz lá, mesmo vivendo no Rio, e reconectar com isso mudou o jeito como eu enxergo pra quem eu desenho. Produto bom, no Brasil, não nasce de fórmula importada. Nasce de entender profundamente o território, a cultura, o jeito de ser de quem vai usar aquilo, e ter humildade pra desenhar a partir daí, não por cima.
Ainda quero voltar pra Belém com câmera na mão, registrar aquilo com mais calma, sem pressa de trabalho. Mas o que ficou daquela viagem já mudou como eu desenho hoje: menos padrão pronto, mais escuta. Menos “assim que se faz”, mais “assim que faz sentido aqui”.
E, no fim, é isso que aprendi desenhando produto no Brasil: o melhor design não é o que impressiona no portfólio. É o que sobrevive ao Brasil real e ainda assim faz alguém sorrir no meio do caos.